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VIRGÍNIA

Virgínia nasceu em Mangualde, numa pequena vila cravada no coração das montanhas. De tanto viver cercada por pedras acabou se tornando uma rocha. Redonda, polida, lapidada, bruta, preciosa, barata, afiada, mas sempre rocha.
A Lua das Ursas
Que lua é essa que arrepia os meus pêlos
E rasga a pele com garras de ursa?
Que frio lunar é esse que me enlouquece
E me afoga nos líquidos de uma colméia?
Que fome é essa que me emburaca
E reflete nas pedras as minhas ancestrais?
É somente uma lua
Nada mais que uma lua.
Uma pausa sideral
Sem nome
Um intervalo negro
Sem forma
Um nó de Ísis
Sem pescoço
Uma árvore
Sem floresta.
É somente uma lua bêbada
Na fronteira de Hécate.
Um mistério de Elêusis revelado
Um décimo terceiro trabalho
Sem Hércules.
É somente uma lua fadista
Na cova das musas
Uma reticência portuguesa
Na caverna da medusa.
É somente uma lua
Que quer ser lua
E nada mais que uma lua.
Portugal estava muito além de Copacabana. Mas Virgínia parecia não acreditar nisso. Entrava no mar e nadava como se a qualquer momento fosse aportar em Lisboa.

Gala
Uma tela de Dali
Um pouco mais ali do isso
Muito além de Gala.
Uma curva freudiana
Um desvio do ça
Bibelôs de Lacan
No afã de gala.
Metáforas da fala
Néant no boulevard do ser
Seta para o dali
Na curva do ali
Além da Espanha e Paris
Uma estrada de giz.
O pincel de Picasso
Coça o céu da boca de Lorca
Muito além das cinco badaladas
Do sino da garganta
Cinco horas
Só na praça!
Um lampião rodopia
E acorda a noite de Gala
Enquanto Freud inala
E Lacan fala.
Memória Lusitana
Quando eu for a Portugal
Fingirei que regresso.
Me vestirei de preto
E chorarei por mortos
Que não conheci.
Me cobrirei com véu
E rezarei com as mulheres.

Virgínia era trágica como os precipícios. Escondia Shakespeare no olhar. E embora devota, era irmã das pragas. Amaldiçoava os injustos, os cruéis e os malvados com a justiça e a bondade das MADONAS.
Jogo da Velha
Uma cruz no almoço
E ao meio-dia
Um círculo
Na limpeza do porão
Uma cruz na louça
E panelas na pia
Um círculo
Cozinhando no fogão
Uma cruz no vidro
E na janela
Um círculo
No mingau da panela
Uma cruz
No meio da agonia
Um círculo
Na cruz do dia.
Nós
Nós são tão fáceis de fazer
Como é difícil fazermos nós!
Nós
São meras laçadas na linha
Nós
Somos um ponto que definha
Nós
São apertos bem dados
Nós
Somos um jogo sem dados
Nós
São possíveis laços
Nós
Somos desenhos sem traços
Nós
São alinhavos de teias
Nós
Somos sapatos sem meias
Nós
São amarras laçadas
Nós
Somos rumos sem estradas
Nós
São indagações quânticas
Nós
Somos soluções semânticas
Nós
São nuvens em movimento
Nós
Somos notas sem andamento
Nós
São curvas de uma seta
Nós
Somos vida em linha reta.
Nós são tão fáceis de fazer
Como é difícil fazermos nós!
Freecortes
Eu cortaria o céu
Se tivesse uma navalha
Só pra ver se sangrariam estrelas.
Eu cortaria os pulsos
Se tivesse um bisturi
Por pura exibição e chantagem.
Eu me tornaria um ladrão
Se tivesse coragem.
Arrombaria o seu amor
E limparia o cofre.

Me arrependo de não ter aprendido a dançar o Vira. Virgínia bem que tentou me ensinar um dia, quando estávamos na cozinha. Soltou os cabelos, emoldurou-os com o jardim do lenço e com quatro forminhas de empada improvisou um par de castanholas. Me assustei com as voltas da sua saia que virava e virava, virá e vira. Levei muito tempo para entender as palavras de Virgínia ao final da dança: "Vem dançar, ó menina, que o vira nunca termina!"
Cosmética
Onde se escondeu o acaso
Dos dados de Mallarmé ?
Onde se enroscou o bigode de Dali?
Por onde andará Brenda Lee?
Cadê minha bicicleta ?
Cadê a combinação de cetim?
Por que se afastaram de mim?
Quem foi o Diabo que apagou a festa?
Quem foi o Cristo que acendeu as rugas?
Quem passou filtro solar no sol?
E cadê o sol?
Cadê o sol?
Voodoo
Preciso subir ao sótão
Procurar o meu caldeirão
Desenferrujar as agulhas
E colher sangue de dragão.
Preciso do trapo de uma saia
E algumas bagas de faia.
Preciso parar o tempo
Secar o mar
Colher tremoços em Portugal
E lhe cozinhar no azeite fervente
Temperado com açúcar e sal.

Virgínia não nascera para amar os homens. No dia em que nasceu, a Virgem planejara torná-la um dolmen. Uma dor de barriga do menino Jesus atrapalhou os seus planos. Virgínia veio então ao mundo como uma menina. Cresceu com estranhas manias : erguia dolmens por tudo quanto é canto. Tinha um no jardim, um no quintal dos fundos da casa, e até um bem pequeno no altar do quarto. Na igreja, jamais reverenciou os santos. Preferia as madonas, redondas, sólidas, aéreas como os seus